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A ditadura e os livros

27/08/2014

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A aplicação de um golpe civil-militar (1964-1985) contra o presidente democraticamente eleito João Goulart (Jango) teve motivações de ordens variadas e combinadas entre si. Cinco décadas depois da instauração do regime ditatorial, há muitos estudos aprofundados disponíveis sobre aquele período no Brasil.

Numa síntese simplista, destacamos aqui quatro dessas motivações: 1) as elites dominantes no período não concordavam com as chamadas reformas de base propostas pelo presidente; 2) os EUA não permitiam aproximação dos governos da América Latina com as ideias comunistas e socialistas, pois vigorava a Guerra Fria, situação que dividia o mundo em dois eixos com tonalidades distintas; 3) eram muitos os sindicalistas e trabalhadores organizados apoiando Jango; 4) temia-se a contaminação do povo pela cultura de resistência das guerras anticoloniais, que abalavam o mundo.

Se o comunismo era algo a ser combatido, toda a literatura relativa a ele era, por decorrência, proibida e perseguida.

Na década de 1960, os clássicos do pensamento de esquerda chegavam com dificuldade em versões publicadas no exterior e se multiplicavam no meio universitário. Logo caíram nas mãos dos jovens estudantes e suas organizações.

 

Editoras nascem resistindo

Após o golpe, além das editoras existentes no país, mais de 40 editoras engajadas surgiram nesse combate de ideias, segundo o historiador Flamarion Maués no recém-lançado Livros contra a ditadura: Editoras de oposição no Brasil (Publisher Brasil, 2013). As editoras se tornaram projetos de intervenção política e mobilizaram autores, profissionais de produção editorial, estudantes e militantes.

Com o recrusdecimento da ditadura, o chamado golpe dentro do golpe, em dezembro de 1968 o regime anunciou o Ato Institucional n. 5 (AI-5) e dias depois o Decreto-lei no 1.077 impôs a censura prévia aos livros.

Para se ter uma ideia da dinâmica do fechamento imposto ao povo, de uma lista de 492 livros perseguidos, pesquisada por Sandra Reimão (2011), 313 foram vetados. A maioria afrontava a “moral e os bons costumes” e outra parte trazia conteúdo de cunho politico. Depoimentos de parlamentares, exilados, artistas e críticos do regime, aqui e no exterior, surgiram no formato de livros.

A censura fez coro com a tortura no processo de destruição do pensamento discordante. Sob o arbítrio do Estado, livros foram jogados em fogueiras, editores perseguidos, autores interrogados e presos – é o exemplo de Renato Tapajós, autor de Em Câmara Lenta (Alfa-ômega, 1977), foi preso por causa de seu livro.

Durante a ditadura, livros serviram com “provas do crime de subversão”. Por mais absurdo que possa parecer nos dias de hoje, entre as perguntas de um interrogatório policial a presos políticos se questionava “quais livros eram estudados”.

Mas não se erradica ideias queimando livros. A criatividade e a persistência de publicações que teimaram em circular sempre estiveram presentes em momentos de ruptura e contra o arbítrio.

Fez história o sucesso editorial de “Brasil Nunca Mais”, publicado pela Editora Vozes (1985), num esforço coletivo que envolveu o arcebispo D. Paulo Evaristo Arns, o rabino Henry Sobel e o pastor presbiteriano Jaime Wright.

A imprensa apoiou incondicionalmente o golpe de 1964 – parte dela saltou do navio mais adiante, quando teve seus interesses contrariados com o fechamento do regime, em 1968. O jornalismo foi salvo pela imprensa nanica, como atestou Bernardo Kucinski no livro Jornalistas e Revolucionários: nos tempos da imprensa alternativa (Edusp, 1991).

Tivemos exemplos honrosos de editores que, além de publicar obras contra a ordem vigente do regime de botas, ainda empregavam trabalhadores perseguidos e identificados com o ideário de esquerda.

Entre os vários companheiros que sobreviveram de seu trabalho no meio editorial, vale destacar Jacob Gorender (1923-2013), combatente da Segunda Guerra Mundial, militante e dirigente comunista – um dos maiores historiadores marxistas do século XX.

 

Novos tempos

A América Latina ultrapassou suas agruras com as ditaduras e elegeu, pelo voto direto, uma série de lideranças populares de esquerda. Equador, Nicarágua, Chile, Bolívia, Venezuela, Argentina, Paraguai e Brasil foram libertos de suas ditaduras e mandaram seus militares de volta aos quartéis.

Ainda falta revelar, às novas gerações, parte considerável da história de terror, pois a verdade tende a impedir que se retorne aos tempos sombrios em que as elites dominantes chamaram “a segurança” para fazer política e tomar decisões muito acima de sua competência constitucional.

Essa tarefa de desvelar o período sombrio está hoje sob a coordenação da Comissão Nacional da Verdade e de todas as suas formações em instâncias estaduais e municipais. Os inúmeros registros escritos a partir deste trabalho servirão às gerações futuras.

Na última década, fruto do amadurecimento da democracia no Brasil, houve uma profusão de livros sobre a ditadura civil-militar publicados país afora. Alguns assumidos por grandes editoras e com tiragem alta para os padrões desse gênero, como o livro do jornalista Mário Magalhães, sobre o revolucionário Carlos Marighella.

Felizmente, a maior parte destes livros foi escrita pelos resistentes e sobreviventes; eles contam aos leitores suas experiências, favorecem cruzamentos de informações e dados de uma época em que a clandestinidade salvava vidas.

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Rogério Chavesé coordenador editorial na Fundação Perseu Abramo e diretor de Formação e Comunicação do SEEL.

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